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PAULO PASTA

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PAULO PASTA: AVENTURAS DA EXPERIÊNCIA
Rodrigo Naves

Para Lorenzo Mammì

I

Desde os impressionistas, uma parte considerável da melhor arte moderna se propôs a representar a realidade como algo que não se mostrava de maneira imediata e sim como um processo, um movimento de conformação do mundo.

Penso que há duas razões decisivas para essa opção: romper com a concepção de uma realidade compacta e dada a priori (e para isso a descontinuidade da pincelada impressionista foi decisiva) e, assim, revelar a dimensão ativa da percepção na estruturação do mundo visível, uma metáfora artística da capacidade humana intervir e transformar as coisas.

Cada um à sua maneira, Monet, Cézanne, Giacometti, Morandi, Klee e tantos outros responderam a esse desafio, levantado por uma dinâmica social e tecnológica que impossibilitava a continuidade das representações mais tradicionais, inauguradas pelos grandes artistas do renascimento. A solidez do mundo tornara-se uma quimera e cabia também à pintura revelar essa nova experiência social.

Picasso, Matisse, Mondrian, Malevich, Miró, Rothko e Cia. escolheram outra direção, na qual a intensidade das cores (não penso no cubismo analítico de Picasso e Braque) conduzia a uma presença mais veloz e plena. Todavia, também para esses artistas, e com soluções muito diferentes, a realidade dava adeus a sua antiga solidez, fosse pelo estilhaçamento proporcionado pelos elementos decorativos de Matisse, pela plasticidade conferida aos sólidos pelas deformações picassianas ou pela capacidade de Mondrian conferir presença equivalente a áreas de cor muito distintas entre si.

As pinturas de Paulo Pasta, nascido em 1959 – e considero aqui somente as telas abstratas, pois as paisagens não estarão na mostra que se inicia dia 6 de setembro deste ano na Embaixada do Brasil em Roma –, têm preocupações semelhantes, equacionadas em parte segundo o que o artista aprendeu com os grandes pintores modernos que mais dizem respeito a sua poética. E para isso foi decisiva a mediação de importantes artistas modernos brasileiros, como Alfredo Volpi, Amílcar de Castro, Milton Dacosta e Iberê Camargo. Grosso modo, a atual pintura de Paulo se constitui de faixas coloridas verticais e horizontais de larguras variadas e, em geral, cabe às faixas verticais o estabelecimento dos momentos mais decisivos das telas, pois elas tendem a expor as áreas de cor que conduzem à identidade colorística das obras. São elas que possibilitam que falemos de telas amarelas, rosas ou verdes ou azuis. As listras horizontais não têm um papel subalterno. Sem elas as faixas verticais não se vertebrariam nem adquiriam um ritmo que é fundamental para as obras do artista.

Essa trama por vezes bastante definida, tão característica da pintura madura de Paulo Pasta, irá, porém, encontrar um contraponto decisivo nas cores usadas pelo pintor. Há sem dúvida amarelos, verdes, laranjas e vermelhos-terra que dizem seu nome alto e bom som. Prevalece, no entanto, os tons rebaixados, discretos que a cera misturada às tintas ajuda a evitar que conquistem uma evidência em tudo contrária à lentidão perceptiva que caracteriza o sentido de suas obras.

Assim, essas pinturas se constroem por dois movimentos aparentemente opostos. Uma estrutura (quase) marcada. E constituída por cores que insistem em problematizar a geometria clara dos trabalhos. Acredito que dessa oscilação nasça a grande pertinência da pintura de Paulo Pasta, ou seja, sua capacidade de, ao mesmo tempo, identificar a volatildade da experiência contemporânea e a tentativa de reconstituir pela pintura o lugar de uma experiência exemplar.

II

Em uma entrevista do teatrólogo alemão Heiner Müller a Frank Raddatz, publicada no Brasil em julho de 1992 , o artista diz que “O verdadeiro problema da era tecnológica é a desrealização da realidade: sua remoção para o abrigo da fantasia. ” Em certa medida. Heiner Müller tem um diagnóstico de nossos tempos semelhante ao de Lorenzo Mammì, para quem se trata de saber “se o mundo ainda está lá para ser pintado” . Acredito não estar equivocado ao entender ambas afirmações no sentido de que a era da tecnologia – que com a expansão do campo digital se radicalizou ainda mais – tende a reduzir a resistência dos elementos naturais a quase nada. Num exemplo primário, podemos pensar o quanto a rudeza do minério de ferro, por exemplo, perde sua solidez ao ser convertido em ferro ou aço. Qual a semelhança entre uma faca de aço inoxidável e as rochas de minério de ferro que estão na sua origem?

E quando os produtos naturais entram na composição de substâncias mais afastadas da natureza – resinas, por exemplo – essa docilidade se acentua, já que, diferentemente de um bloco de mármore ou de um tronco de madeira, os materiais sintéticos têm uma resistência totalmente distinta da dos elementos primários. As coisas, porém, não param por aí. Quando as commodities (ferro, petróleo, café, açúcar, soja etc.) são transformadas em papéis negociáveis em bolsa, o que sobra de uma possível experiência da natureza nesse movimento de mercado? Um operador de uma bolsa de mercadorias pode muito bem nunca ter visto um cafeeiro ou um poço de petróleo na vida.

E a tendência crescente a termos contato com acontecimentos ou pessoas a partir de imagens veiculadas pela indústria cultural certamente nos afasta ainda mais da possibilidade de realizarmos uma experiência pessoal do mundo. Andy Warhol foi o artista que melhor desvendou esse processo. Para Lorenzo Mammì, a pintura de Paulo Pasta irá depender de uma decisão moral: “A intensidade all over, que faz com que as coisas não sejam nem faixas nem colunas, é a manifestação de uma experiência estética do mundo numa situação de desaparecimento da paisagem e de vazio da história – numa situação em que o pacto entre espectador e pintor já não se dá a partir de um patrimônio cultural comum, mas de uma aposta moral: a de que, se aceitarmos manter certa pregnância na relação com o sensível, não por estímulo exterior, que não existe mais, mas por vontade própria, um terreno comum de experiência pode ser estabelecido.”

III

A interpretação é notável, mas resta uma dificuldade. Uma pintura tão discreta e tão pouco impositiva como a de Paulo Pasta – ao mesmo tempo de forte ressonância no mundo sensível – poderia encontrar justificativa numa decisão voluntária (“por vontade própria”, nas palavras de Lorenzo Mammì)? Que haja na obra de Paulo um forte teor ético, de recusa à pobreza a que foram reduzidos os sentidos nos nossos dias, não tenho a menor dúvida. Mas penso também que o ensaio de Lorenzo Mammì abre a possibilidade de avaliarmos, a propósito da pintura do artista, uma hipótese diversa.

Paulo Pasta cresceu numa pequena cidade do interior do Estado de São Paulo, Ariranha, em que plantações de cana já conviviam com usinas de açúcar e álcool. Vem para a capital com 18 anos, uma idade em que a personalidade de um indivíduo já está consideravelmente consolidada. Sua arte não tem, nem de leve, um caráter nostálgico ou passadista. Há nela porém uma dimensão memorialística forte e nada retórica. Na metade da década de 1980, Paulo realizou algumas telas figurativas que evocavam paisagens da sua vida no interior. Pouco depois sua pintura mostra o interesse pela investigação do passado por meio de raspagens. A camada mais externa de tinta, ao ser arranhada, faz surgir, nas camadas inferiores, vestígios de figuras algo arcaicas. Frontões, ogivas e colunas surgem timidamente em meio aos arranhões, numa interrogação de ordem meio arqueológica. Penso que até esse momento de seu trabalho ainda seja possível identificar uma relativa utopia do passado e das eventuais virtudes da infância.

Progressivamente a pintura de Paulo irá incorporar na sua própria fatura a discussão da passagem do tempo e dos possíveis vínculos de sua arte com os homens e a história. A natureza mesma de suas cores tão meditativas e cismadas aponta para um tempo que parece ter sua atualidade sempre um pouco adiada. Elas são simultaneamente uma afirmação mais ou menos intensa e sua suspensão. É provável que seja esse movimento que Lorenzo denomina “dialética interna da cor” .  Apenas lentamente suas cores vão se organizando em figuras mais estáveis, a trama geométrica das telas. O homem que cresceu e se formou num meio totalmente diferente do das grandes cidades não usa esses tons discretos para lamentar um destino ingrato. Apenas não pode aderir de imediato a uma realidade que, embora postule, não encontra em seu horizonte.

A implosão da identidade de coisas e pessoas levada a cabo pelas novas tecnologias, pela voracidade da mercantilização, pela violência e pela cultura da imagem vai conduzir a uma experiência do mundo que incorpora essa dinâmica de desmaterialização da realidade. Porque as cores de Paulo Pasta têm um aspecto poroso (embora sejam tão compactas como as cores de Miró) que parece remeter a um mundo que já não supõe as operações mais rudes possibilitadas pelas transformações tecnológicas desenvolvidas até meados da II Segunda Guerra Mundial ou então aos grandes confrontos sociais iniciados a partir da Revolução Francesa.

As tecnologias digitais e nucleares (não bélicas), os desenvolvimentos da biotecnologia e da genética permitem realizar transformações que não supõem mais um desventramento da realidade, e sim modificações que se dão na própria constituição da matéria. Há indiscutivelmente muitas questões éticas envolvidas nesses processos. O que não impede de eles já estarem ao alcance de parte considerável da população, dos alimentos transgênicos aos novos meios de comunicação. Igualmente me parece que a organização social dificilmente poderia ser equacionada, como foi ao menos até a revolução soviética, num enfrentamento daqueles que ocupavam posições opostas no processo produtivo: burgueses e proletários. Desde a revolução bolchevique nenhum outro grande processo de transformação social se deu nessas bases. A revolução chinesa foi essencialmente camponesa. E em sã consciência é quase impossível negar que o reformismo social democrata europeu foi mais bem-sucedido que os movimentos ditos revolucionários.

Acredito que ao menos parte da grandeza da obra de Paulo Pasta esteja em conseguir formular em termos estéticos essas experiências mais contemporâneas. Se a memória é um esforço de tornar presentes acontecimentos passados, o que sucede em sua arte – com todas as oscilações apontadas anteriormente – tem a ver com a premonição da intensidade e do terror de uma vivência que simultaneamente liberta (pois aumenta nossas potencialidades) e nos coloca no limiar de uma destruição apocalíptica.

IV

No seu desenvolvimento, a obra de Paulo Pasta consegue nos transmitir uma experiência dos ritmos da passagem do tempo – as várias dinâmicas históricas – altamente verossímil. Do sentimento lírico, de uma experiência mais subjetiva do tempo, passa-se a uma relação problemática com uma temporalidade avassaladora, conduzida por processos sociais e tecnológicos promissores e, simultaneamente, apreensivos. De uma relação memorialística com seu tempo passará, nas telas mais recentes, a um vínculo antecipatório com a atualidade, o aspecto de premonição em que, mais uma vez experimentamos riscos e possibilidades.

A tela “Anunciação”, inspirada na composição e nas cores de trabalho homônimo de Duccio – possivelmente o melhor quadro dessa mostra – resume à perfeição a trajetória complexa desse grande artista. Realizada em levíssimos tons de rosa, azul e cinza, ela aponta ao mesmo tempo para uma leveza aberta a grandes possibilidades e para um possível apocalipse. Podem não ser apenas bem-aventuradas as novas anunciadas pelo arcanjo Gabriel.








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