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REGINA PARRA

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POR QUE TREMES, MULHER?
Moacir dos Anjos

A exposição de Regina Parra na Galeria Millan não formula discurso que se entrega de pronto, resistindo ao olhar cansado ou ao esquecimento ligeiro. É mais ambiente que ressoa incômodos difusos do que coleção de coisas de significados precisos. Considerando-se isoladamente cada um dos trabalhos expostos, não fica logo evidente o que a moveu para elaborá-los como conjunto. Desde o título interrogativo da mostra – Por Que Tremes, Mulher? – há uma deliberada aposta na imprecisão do que é comunicado, como se apenas através da opacidade da linguagem empregada fosse possível falar claro. É somente quando se passa de um a outro deles que uma teia de sentidos vai sendo tramada em ricochete entre pinturas, desenhos, vídeo, texto e áudio.

Os sons importam aqui tanto quanto as imagens, promovendo operações sinestésicas inadvertidas ou planejadas. A escuta repetida da expressão “sim, senhor” e de outras assemelhadas – isoladas pela artista de seus contextos originais e encadeadas em fragmentada narrativa sonora – evoca situações de assentimento à fala de quem tem o poder de mandar. Obediência que imobiliza e regula corpos, inscrevendo neles, como se fossem naturais, movimentos que expressam concordância com as ordens dadas. Respostas corporais que, de tão automatizadas, parecem ter sido longamente estudadas, como sugerem os desenhos, feitos por Regina Parra, que aparentam pertencer a antigos manuais de ginástica. Em vez, contudo, da variedade de gestos que aqueles continham, o único movimento ensinado nos trabalhos da artista é o da cabeça que repetidamente se move de cima para baixo, em sinal evidente de aquiescência ao que lhe é comandado.

Além de sons que remetem a imagens subtraídas da vista, há pinturas que descrevem esculturas ausentes, em processo contínuo de substituição de referentes imediatos. Há nelas, porém, indicações mais precisas de quem ordena e quem apenas obedece, em uma desigual partição de direitos e capacidades. São trabalhos que fixam, em óleo e cera sobre papel, representações de negros, índios e mulheres feitas em metal pintado e em tamanho natural, comumente encontradas nos jardins ou casas de fazendas no interior dos estados do Rio de Janeiro e São Paulo. Esculturas que têm origem francesa ou italiana e que são genericamente chamadas de blackamoor, tendo por principal característica apresentarem esses homens e mulheres em situações de subserviência, embora sempre com a aparência dócil de quem não tem vontade. Aparência de quem está resignado ou satisfeito em ser serviçal.

Esses sons e essas imagens apresentados por Regina Parra guardam, portanto, marcas discretas, mas ainda assim loquazes, da violência que rege a história do Brasil – a remota como a recente. Violência que atinge em cheio negros e índios e que tem nas mulheres (inclusive as brancas, que são por isso um pouco negras e índias) um de seus alvos mais frequentes, como sugere a pergunta que dá nome à exposição, sobreposta à imagem embaciada de uma floresta como se fosse a legenda da cena de um filme inexistente. Por Que Tremes, Mulher? é verso de poema de Castro Alves que descreve o temor de uma mulher escravizada de que lhe roubem o filho ainda pequeno para ser vendido. Medo de perda de algo importante que é similar ao sentido por muitas mulheres brasileiras em situações de violência contra elas ou seus filhos.

A mata fechada é retratada de novo, em tamanho maior, em outra pintura, projeção simbólica daquilo que se encontra além do que a vista alcança e que causa medo por ser território não conhecido. O ignorado pode, entretanto, ser também rota de fuga, ainda mais quando é grande a dor sofrida para tão somente manter-se vivo. É esse paradoxo que ancora o vídeo “Capitão do Mato”, nome tomado do pássaro que habita muitas das florestas da América Latina e que no passado ganhou tal alcunha por anunciar, com seu canto agudo, qualquer movimentação estranha na mata, delatando escravos fugitivos que nela se embrenhavam e se escondiam. Em paisagem tão exuberante quanto claustrofóbica, a artista faz confluir canto de pássaro e som saído da boca de homem, em rememoração encenada dessa improvável e mortífera aliança. Um par de pinturas pequenas retrata, por fim, um capitão do mato (o pássaro) inerte sobre o chão: aquele que grita está agora calado e morto. Outros capitães do mato, todavia, ainda insistem em sua empreitada de silenciosa perseguição.

Em última mudança e torção de mídia, Regina Parra escreve e inverte, em neon, frases que anunciam opções de como portar-se diante da dor do outro, há muito enunciadas pelo ensaísta martinicano Frantz Fanon: manter-se aterrorizada ou tornar-se terrível. Não cabe a seu trabalho, porém, induzir tomadas de posição claras. Essa não é responsabilidade dele, cabendo a cada um deixar-se ou não afetar pelo esboço de arqueologia da violência brasileira que a artista apresenta. Isso é tudo o que arte pode oferecer para combater o que é insuportável para muita gente. Se não é suficiente, é já bastante.








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