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FERNANDO ZARIF

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FORÇA ESTRANHA NO AR
Lenora de Barros

O termo estranhamento ou ostranenie foi utilizado por Viktor Chklovski, teórico de literatura e formalista russo, em seu texto A Arte como processo ou A Arte como procedimento (“Iskusstvo kak priem”), publicado pela primeira vez na revista Poetika em 1917.

Para o escritor russo, “a finalidade da arte é dar uma sensação do objeto como visão, e não como reconhecimento; o processo da arte é o processo de singularização – ostranenie/estranhamento – dos objetos, é o processo que consiste em obscurecer a forma, em aumentar a dificuldade e a duração da percepção”.

“O ato de percepção em arte é um fim em si e deve ser prolongado; a arte é um meio de sentir o devir do objeto – aquilo que já se ‘tornou’ não interessa à arte.” O estranhamento, para chklovski, seria então o efeito criado pela obra de arte literária para nos distanciar (ou nos estranhar) do modo comum como apreendemos o mundo e a própria arte, o que nos permitiria entrar numa dimensão nova, só visível pelo olhar estético ou artístico. sigo pelas obras de Zarif. O conceito de ostranenie, descrito acima, é sentimento e palavra-chave para entrar nos ires e devires dos objetos, sentidos e i-logismos criados por Fernando. (1)

E as formas modernas-contemporâneas desse e de outros tempos concebidas por ele se dão num tempo mítico, atemporal, num estado de “pra sempre”. Montam, desmontam e remontam o seu relógio obsessivamente, embaralhando as peças a cada vez.

Zarif provoca perversa e suavemente o olhar – e o tato desse olhar que, quando olha, as vezes quer tocar no que vê e, mais ainda, no que não vê e passa a ver pela primeira vez (com o mesmo estranho frescor da primeira vez). É tudo tão tátil-visual em seus objetos-quadros-esculturas-textos-instalações-poemas-narrativas-sons-sentidos-imagens.

Fernando é único no plural. lembro de suas camisas brancas e calças pretas enfileiradas todas quase iguais penduradas no guarda-roupa. tudo diferente e igual, ao mesmo tempo agora.

O estranho sentimento de ostranenie que me toma sempre que re-vejo seus trabalhos está presente em todas as ações que o levaram àquele resultado formal que vejo diante dos meus olhos – desde a escolha de materiais inusitados a seus métodos e meios de produção sui generis. herdou do moderno, via Duchamp, magrittes e carvalhos a consciência de linguagem, a paixão pela ruptura e pela experimentação. Romper, revolver e deslocar sentidos faz parte do seu modus operandi. O caminho que é só dele vai por linguagens e miragens e acasos e dados e direções várias e variáveis. Incertezas certeiras e únicas são exibidas em sua carne viva.

E tantos e quantos extraordinários desenhos foram gestados por Zarif. Em todos algo de estranho. E até quando for pra ser (isso aprendi com ele), me deslumbrarei, e me mirarei nos modos de ver de Fernando ver – formas que criam e transportam sentidos do lado de lá para o de cá. Imagens – enigmas do inimaginável imaginado por ele.

O processo de composição de Fernando Zarif ilumina e amplia a nossa imaginação com as lentes de aumento dos sentidos.

(1) “Devir é o conteúdo próprio do desejo (máquinas desejantes ou agenciamentos): desejar é passar por devires. [...] Acima de tudo, devir não é uma generalidade, não há devir em geral: não se poderia reduzir esse conceito, instrumento de uma clínica fina da existência concreta e sempre singular, à apreensão estática do mundo em seu universal escoamento – maravilha filosoficamente oca. Em segundo lugar, devir é uma realidade: os devires, longe de se assemelhar ao sonho ou ao imaginário, são a própria consistência do real. [...] convém, para compreendê-los bem, considerar sua lógica: todo devir forma um ‘bloco’, em outras palavras, o encontro ou a relação de dois termos heterogêneos que se ‘desterritorializam’ mutuamente. Não se abandona o que se é para devir outra coisa (imitação, identificação), mas uma outra forma de viver e de sentir assombra ou se envolve na nossa e a ‘faz fugir’. [...] O devir é, em suma, um dos polos do agenciamento, aquele em que conteúdo e expressão tendem ao indiscernível na composição de uma ‘máquina abstrata’.” François Zourabichvili, O vocabulário de Deleuze, tradução de André telles. Rio de Janeiro, 2004, p. 21.








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