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NELSON FELIX

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NELSON FELIX
Marisa Flórido

Sopro incontido que lancina e entorpece, há sempre uma demasia na paisagem. As janelas sonham em emoldurá-la, as molduras teimam em capturar-lhe a miragem, as fugas em reconduzir os olhares. Em vão. As formas são incapazes de domesticá-la, as distâncias não cedem aos caprichos dos lugares e de seus gênios (os anfitriões que protegem e regem o loccus).

Os trabalhos não respondem aos lugares, são guiados por suas abstrações, por rebatimentos, teóricos e geográficos, de coordenadas e convenções. Um desenho no globo os determina.

Estranha arquitetura dos sopros.

A paisagem? “Uma queixa da matéria acerca dos limites dentro dos quais é aprisionada pelo espírito” [1], disse Lyotard.  O contrário de um lugar, insistiria o filósofo: “para ser passível da paisagem, é necessário tornar-se impassível em relação ao lugar. O lugar é natural, encruzilhada dos reinos e do Homo sapiens. Minerais, vegetais, animais ordenam-se ao saber e este último dá-se a ele de forma espontânea”. Privilégio das montanhas, planícies, florestas, a paisagem é apenas partida, sem destino. Um abismo ontológico, a desorientação é uma condição da paisagem”[2] .

À suave ferocidade da paisagem, a arte só poderia responder com doce violência. Como apresentar o que brutalmente nos ultrapassa?

Retorno às Cavalariças do Parque Lage após 8 anos em que ali expus. É a finalização de um processo permeado pela circularidade.  O círculo está nas formas inteiriças da escultura e na volta ao mundo, no pensamento e nas ações que construíram sua poética.

Entre a exposição em 2001 e esta – os dois momentos de uma doação aos olhos, os dois instantes em que a obra efetua o movimento de seu aparecer – Nelson Felix realizou uma série de inserções artísticas em vários locais do mundo definidos por rebatimentos abstratos no mapa. Acontecimentos que nos recusam o contato direto; que se tramam nesse arco de invisibilidades entre dois (e o mesmo) pontos fixos, as Cavalariças, em meio a deslocamentos sem fim. Chegam até nós por desenhos, fotografias ou por narrativas e rumores no seu decorrer. Como relatar a circunvolução do artista pelo mundo? O périplo, os abandonos e as deposições da arte no mar do Caribe, da China, na costa australiana ou em um vulcão na Islândia? Como receber os acontecimentos artísticos na paisagem, como paisagem? 

Como responder poeticamente à mesma atitude? Ao mesmo gesto? Desdobrando-o, estendendo-o circularmente. Cada ação é sempre duas. Ou mais. Os vários trabalhos decorrem dessa atitude inicial. São únicos, independentes e, ao mesmo tempo, interligados como uma só obra.

Já em Cruz na América, entre 86 e 2003, o artista havia relacionado 4 paisagens onde interveio por cruzamentos no mapa: a partir de dois pontos – na floresta amazônica e no pampa gaúcho – uma perpendicular à reta que os interligava encontrou o litoral cearense e o deserto do Atacama. Na mesma latitude de Camiri na Bolívia, o centro da Cruz na América, estava Vila Velha no Espírito Santo, onde o artista expôs em 2006 no Museu Vale. Se 23 graus separavam os dois locais, a coincidência de latitude e graus os entrelaçava.

23 graus correspondem também à angulação da eclíptica, o desvio da órbita em relação ao eixo do Sol. Marca de imperfeição da Terra. Por isso as peças escultóricas, em algumas de suas exposições seriam dispostas em 23 graus, como no Parque Lage em 2001 ou no Museu Vale. Se as esculturas alinhavam-se em sintonia com os movimentos cósmicos, entravam em imediata estranheza com o local específico que as acolhia. E, estendendo os desígnios circulares: o rebatimento da coordenada de Camiri no hemisfério norte encontrou Anguilla no mar do Caribe; a projeção para o outro lado do mundo, a ilha de Dong-sha, no mar da China, e Karratha na costa australiana; a inversão das coordenadas de Camiri, o vulcão Hekla na Islândia. 

Na precisão dos cálculos, deparo-me com as coincidências e os acasos: os 23 graus que se repetem, a exata circularidade da ilha chinesa ou deparar-me com a cratera de um vulcão para a última foto...

Eterno retorno. Não como o movimento cíclico de um tempo sem começo ou fim, sucessão contínua e invariável de instantes idênticos que se repetem na eternidade. Mais próximo a Nietzsche talvez. Se não há origem, se a realidade não possui fundamento ou finalidade, a combinação de forças em conflito, que compõe cada um dos instantes, em algum momento se repetirá.

Por isso vemos os eventos, os pequenos detalhes, os mínimos atos retornarem infinitamente. Por isso cada gesto deve ser realizado de tal modo que se deseje seu eterno retorno. Um mundo de forças em incessante movimento, sem repouso ou equilíbrio, circular.

Em cada um desses lugares, o artista depositou uma escultura, realizou uma ação: olhar em direção ao Parque Lage defronte ao vulcão Hekla, depositar um anel de mármore na ilha circular chinesa e extrair das horas de viagem e espera uma única fotografia, um único instante conciso e circunspecto. Atravessar o deserto australiano para chegar à costa e efetuar um estranho exercício de composição em que as esculturas giram inquietas sobre o solo. A esfera ao norte, a linha e o plano, ao sul. Inesperada geometria.

Trata-se de jogar fora os trabalhos, como as muitas idéias. É um exercício de esvaziamento, inclusive de um certo olhar cínico.

Pura despesa e dom.

O vazio. Para algumas culturas orientais, ponto sem ponto, ponto sem lugar em meio à agitação universal de onde tudo deriva e para onde tudo retorna. Mas, sobretudo, uma disposição: o abandono do que se toma por verdadeiro, além de toda apreensão ou ausência de apreensão.

É uma atitude muito semelhante a dos aquarelistas orientais que passavam dias ou meses olhando a paisagem. Quando iam retratá-la, às vezes pintavam o que viam, um pagode, algumas árvores; em outras, um só traço ou linha bastava. Faço isso com meu próprio trabalho. As esculturas e os desenhos que apresento na Galeria H.A.P., simultaneamente à exposição no Parque Lage, são uma tentativa de realizar a obra – exposição/4 trabalhos no mundo/ exposição – novamente em uma outra linguagem. Clássica até. 

Onde afinal ocorre uma paisagem, um lugar? Algo aqui parece inverter-se em relação ao que dizia Lyotard. Pois para acolher a paisagem, esse lamento da matéria, o artista não parece impassível ao lugar. Ao contrário, o lugar nele superlativa-se, torna-se abstrato sem responder a seus caprichos. Se o lugar

é a encruzilhada dos reinos e dos homens, Nelson Felix opera uma hipérbole desses entrelaçamentos, multiplica ao infinito as encruzilhadas – e o infinito, como disse o filósofo, “é a reserva inesgotável exigida por uma paisagem”. Poderíamos então propor uma outra imagem: a paisagem é promessa e fuga de todos os lugares. Ponto sem ponto de todas as suspensões para onde os lugares se dirigem e de onde os lugares transbordam, extraviam, escapam.

Cruzes, cubos, anéis e círculos são signos de orientação e aliança que o artista utiliza em seus últimos trabalhos. Mas ele não toma desses signos sua potência de orientação ou de fundação de um sítio. Toma desses signos sua potência de entrelaçamentos. Pois não habitamos um espaço homogêneo onde se situariam coisas e seres a partir de um centro, origem e destino das ponderações e dos apaziguamentos. Essa vã tentativa de conter o mundo em globos, meridianos ou elipses. Vivemos em meio ao infinito dos cruzamentos de convenções e simbologias, sem todavia reconciliá-los.

O que há de específico é essa tessitura sem fim de relações que definem, por um breve instante, nossa posição no mundo: tão sujeita aos desenhos e símbolos com os quais convencionamos os espaços e os tempos como aos acidentes e às errâncias que nos extraviam, oscilando entre as medidas e o incomensurável, entre a existência como um lapso no tempo e as horas dilatadas dos astros. Como tornar visível esse entrelaçamento entre os desenhos abstratos do mundo, como as latitudes, e as marcas que nele imprimimos?

A proporção do desenho que liga os 4 sítios no globo, o ângulo e a rotação das vigas, os novos locais das esculturas de mármore no mundo e a presença do círculo impregnam e compõem as decisões artísticas no espaço expositivo das Cavalariças. Retomo o mesmo procedimento e material da mostra inicial em outra configuração poética. O ritmo das vigas não se rompe mais por força de seu posicionamento, mas pelo peso da massa escultórica que retorna: um grande anel de mármore.

Os sentidos do mundo não são mais que uma miragem que o artista em vão tenta fixar e deslocar. Eis o destino do artista: dispor dos signos e das convenções para multiplicar e articular seus sentidos, com tal complexidade, que inviabilize qualquer retorno à ligação simbólica ou a um significado qualquer.

Após o significado do significado do significado, retornar à inteligência de um olhar quase ignorante. 

Para colocar em fuga os pontos de apoio. Para encontrar a desorientação da paisagem, seu abismo ontológico, na sobredeterminação do lugar.

 

Texto publicado em outubro de 2009.

 

[1] LYOTARD, Jean-François. Scapeland. In: O inumano/ considerações sobe o tempo. Tradução Ana Cristina. Seabra e Elisabete Alexandre. Lisboa: Estampa, 1997. p. 189

[2] Idem ibidem. 

 








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