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BOB WOLFENSON

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O BOB É POP!
Eder Chiodetto

A infância é o período em que o significado da realidade circundante ganha contornos oníricos em função da liberdade da imaginação. A história da arte é repleta de exemplos de artistas – Fellini à frente – que recorrem à memória do olhar infantil para ativar uma poética possível na vida adulta. O fotógrafo paulistano Bob Wolfenson, 55 anos, fez desse olhar em retrospectiva uma sólida ponte para atravessar a distância geralmente insuperável entre a fotografia publicitária e o mundo da arte.

Celebrado fotógrafo de moda, publicidade e nus, que dos anos 1980 até hoje se manteve como um dos dois nomes mais relevantes no mercado editorial brasileiro, Bob é dono de uma personalidade inquieta, curiosa, provocativa. Embora seja avesso à ideia de ser estigmatizado como fotógrafo disto ou daquilo, tão logo ele passa a ser reconhecido como excelente retratista, após o lançamento do livro e da mostra “Jardim da Luz”, realizada em 1996, no Masp, em São Paulo. Mas ele se reinventa, flertando com outras possibilidades de abordagem na fotografia.

Foi assim que em 2004 ele realizou a bem-sucedida mostra “Antifachada – Encadernação Dourada”, na FAAP, em São Paulo. Surpreendendo a todos, o agora assumidamente artista fez uma exposição de forte caráter contemporâneo ao expor, em conjunto, imagens de prédios de São Paulo realizadas em alta definição, ampliadas em grandes proporções, e imagens de sua intimidade feitas com câmeras amadoras, sem qualquer pretensão que não fosse a de celebrar a vida familiar.

Mas e o olhar da infância entra onde? A visão dos prédios antigos e deteriorados do centro da cidade resgata justamente a visão estupefata do pequeno garoto judeu criado no tradicional bairro do Bom Retiro, em São Paulo, diante de uma muralha de concreto.

Anos mais tarde, em 2007, as reminiscências infantis de novo se fizeram presentes no ensaio A caminho do mar, exibido na Galeria Millan. Quando criança, Bob ia frequentemente com seus pais para o litoral. Sentado no banco de trás, os olhos grudados na janela, a paisagem fluindo como uma tela de cinema. De repente, a visão: um cenário de filme de ficção científica surgia. Era a cidade de Cubatão, com suas chaminés fumegantes, seu cheiro ácido no ar, sua atmosfera lúgubre, assustadora.

O retorno a essa memória da paisagem – ou antipaisagem, como ele próprio escreveu – rendeu imagens de grande densidade e gerou uma exposição de belíssimo acabamento, auxiliado pela equipe de competentes profissionais que o cercam, como Renato Cury, que nos últimos anos viabiliza tecnicamente os sonhos mais delirantes do artista.

Essas duas mostras colocaram Bob definitivamente sob os olhos de colecionadores e curadores de respeito, como o francês Pierre Devin, que acaba de editar um portfólio de novas imagens de Bob sob o título Cinépolis, para a Schoeler Editions. Com impressões de alta qualidade, Cinépolis ganhou mostra no Museu de Arte Moderna da Bahia, a convite da curadora Solange Farkas. As imagens, de novo, surpreendem: trata-se de delicadas composições realizadas no vácuo entre o trabalho e o lazer. Um olhar curioso que se detêm em elementos que, em comum, carregam a transitoriedade, vestígios do tempo. O intervalo entre o ter sido e o vir a ser.

Artista, publicitário, retratista... A verdade é que o Bob é pop! E ser pop, no caso dele, não é tarefa fácil. Afinal, ele é no Brasil o caso único de fotógrafo que trafega, é bem aceito e respeitado profissionalmente em áreas distintas e quase excludentes, como o mercado publicitário e os museus, entre diretores de arte e curadores, entre as top models mais badaladas da estação e fotógrafos concorrentes que muitas vezes se tornam seus amigos.

No meio da fotografia é quase um clichê fotógrafos publicitários muito bem-sucedidos quererem, após conquistar fama e dinheiro, serem reconhecidos como artistas, integrando o staff de importantes galerias e acervos de museus representativos.

Deixando de lado o preconceito que muitas vezes ronda a área, o fato é que o olhar por muito tempo empregado em função da fotografia de caráter mais utilitário raramente consegue alçar voo, depois, nos meandros da subjetividade artística. Na maior parte das vezes, essa tentativa fica no meio do caminho, e a frustração dos “quase artistas” é evidente.

Bob, ainda que imune a isso, tem consciência desse processo e sabiamente produz no seu ritmo, sem se preocupar: “Nunca quis viver de arte, nunca ambicionei ser artista. Adoro tudo o que faço e da forma que faço. Nunca tive disposição para pagar o alto preço que deveria para viver de arte”, diz.

Se diretores de arte modificam uma fotografia sua até o limite em que ele próprio não reconhece mais seu trabalho, tanto faz. “A publicidade é um jogo. Sou apenas parte da engrenagem, não um autor”, afirma. Mas a moda, por exemplo, é uma válvula de escape: “Adoro! Sempre tem uma boa porção de acaso, de criação espontânea”, diz com brilho nos olhos.

Sobre os nus, ele se diverte com a fantasia que esse trabalho desperta nas pessoas. O escritor Mario Prata, por exemplo, escreveu uma bem-humorada crônica sob o título nada sutil “Quero matar o Bob Wolfenson”, ao saber que sua esposa, uma modelo, havia sido convidada por Bob a posar nua em seu estúdio.

Cultivando o poder de imaginação e a capacidade de se surpreender com as coisas simples da vida, como aquele garoto que espiava avidamente o bairro do Bom Retiro pela janela de casa, Bob segue um caminho original e único dentro da fotografia brasileira. A ansiedade e a visão de si mesmo, muito bem trabalhadas após 12 anos de terapia, o fazem ser a personificação da máxima do poeta Paulo Leminski: “Distraídos venceremos”!








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