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Pisa na Paúra

LENORA DE BARROS
22 . nov . 2017  -  20 . dez . 2017 , Anexo Millan
abertura 21 . nov . 2017, 19h - 22h
seg – sex, 10h – 19h; sáb, 11h – 17h
  • Alvos_lenoradebarros_video_exposicao_pisa_na_paura_alta

A artista visual Lenora de Barros expõe sua produção mais recente, de 22 de novembro a 20 de dezembro de 2017, após uma temporada de pesquisa em Nova York. Pisa na Paúra ocupa o Anexo Millan e examina temas como violência e medo por meio de diferentes suportes, incluindo vídeo, instalação, lambe-lambe e cerâmica.

A palavra “paúra”, que é sinônimo de medo, tem a mesma raiz de “pavor” e de “espanto”: pavere, em latim, significa “estar tomado de pavor ou espanto, estar possuído”. A artista adentra as dimensões etimológicas daquela palavra para engendrar um conjunto de obras inéditas que marca uma nova fase em sua carreira. Ela se lança agora a novos desafios ao dedicar-se ao ofício manual, em especial a cerâmica, pesquisa que levou a cabo durante seis meses no Sculpture Space, em Nova York, nos Estados Unidos.

Na entrada do espaço expositivo, Lenora cobrirá duas grandes paredes (de 6,5 x 11 m) com lambe-lambes com a expressão “pisa na paúra” escrita à mão. O texto repete-se de forma obsessiva e rítmica e sobrepõe-se até quase atingir o estado entrópico. O remate é uma passagem poética e radical da linguagem verbal para o desenho.

No centro da mesma sala, os visitantes serão convidados a pisar nas letras da palavra “paúra”, feitas de argila, que evocam literalmente o sentimento do título da exposição, a ideia de pisar no medo. A cerâmica também surge numa série de pequenas esculturas intitulada Máscaras de Mão (2017), cujo formato e escala se assemelham a luvas de boxe, mas também sugerem rostos desfigurados.

O processo para sua realização partiu de um insight da artista ao explorar a matéria por dentro, seu aspecto visceral. “Essa situação primitiva do barro e como isso poderia se prestar a minha poética me interessam. No início, tinha medo do processo de criar a forma, e esse sentimento me fez resgatar um poema que escrevi em 1972”, conta ela, referindo-se a MEDO DA FORMAAMORFA. A visceralidade já era um elemento recorrente em sua trajetória, mas agora assume caráter mais sensitivo.

Numa linha de pesquisa que se desenvolvia paralelamente e em diálogo com as peças de cerâmica, a artista vinha fazendo experimentos com alvos utilizados em academias de tiro – um elemento incômodo e perturbador num tempo em que a violência se dissemina de maneira assustadora e se volta contra alvos determinados, mas também aleatórios. Durante o processo de pesquisa, Lenora decidiu recolher no lixo de uma academia de tiros em São Paulo alguns exemplares de alvos usados, que serão apresentados na mostra. “Chamou minha atenção a carga de violência contida nessas figuras em ‘decomposição’ após os tiros que receberam – imagens de corpos que nunca viveram, mas morreram de forma violenta”, comenta.

As peças também serviram como ponto de partida para o vídeo Alvos, que foi gravado numa das salas dessa academia, no qual a artista posiciona a figura do alvo no próprio rosto. “O que se destacou nessa imagem é o fato de o ponto que direciona o tiro estar situado em cima da boca. Essa conexão com a língua e a linguagem me interessa”, explica, e complementa: “O intrigante é que essa figura possui uma expressão impávida, cujo significado é justamente o oposto de ‘paúra’”.

Lenora de Barros realizou seus primeiros trabalhos na década de 1970, num campo de pesquisas que privilegiava as relações entre palavra e imagem. Filha do artista Geraldo de Barros (1923-1998), ela conheceu de perto o ambiente do construtivismo paulista. “Cresci nesse meio estimulante interagindo com artistas e poetas, sob a influência do concretismo, da cultura pop e do clima de experimentalismo e transgressão de setores do meio cultural na época em que o Brasil vivia sob uma ditadura militar. Tudo isso me influenciou e estimulou o desenvolvimento de meu trabalho, que veio a se encontrar com o ambiente mais amplo da arte contemporânea.”

Décio Pignatari – Na Arte Interessa O Que Não

CURADORIA DE JOÃO BANDEIRA
22 . nov . 2017  -  20 . dez . 2017 , Galeria Millan
abertura 21 . nov . 2017, 19h - 22h
seg – sex, 10h – 19h; sáb, 11h – 17h
  • Deciopignatari_cr_isto

A Galeria Millan recebe, de 22 de novembro a 20 de dezembro de 2017, a exposição Décio Pignatari – Na Arte Interessa O Que Não, com curadoria de João Bandeira. A singularidade da mostra se caracteriza pela apresentação de uma maioria de trabalhos menos conhecidos, incluindo alguns há muito fora de circulação, produzidos entre os anos 1950 até os 2000, sem deixar de fora exemplos dos clássicos da produção de Décio Pignatari, num conjunto de cerca de cinquenta obras.

Também serão exibidos manuscritos e datiloscritos originais, cartas, fotografias e outros documentos, alguns deles jamais vistos publicamente, e ainda material sonoro e audiovisual. A exposição, que ocupa os dois andares da galeria, se propõe a dar um panorama conciso mas multifacetado da produção artística de Décio, que amplia a compreensão de sua obra para além do reconhecimento como um dos fundadores da poesia concreta ao lado dos irmãos Augusto e Haroldo de Campos.

Ao longo de mais de meio século de atuação no meio cultural do país, Décio Pignatari explorou nos seus trabalhos não apenas a dimensão semântica, mas também sonora e principalmente visual da linguagem. Nome-chave da poesia visual no Brasil, ficou conhecido por sua inquietude criativa, sendo também autor de peças de teatro, contos e um romance, sempre com alto grau de experimentação, além de uma série de textos de referência nas áreas da semiótica e da teoria da comunicação.

Parte da sua rica produção artística poderá ser vista na exposição, incluindo originais de época de poemas visuais como Terra (1958) e o icônico Beba Coca-Cola (em versão serigráfica assinada por Décio em 1991), além de obras como Pelé e Agora, da série Poemas Semióticos (1964) e uma tiragem fac-símile de Cr$isto é a Solução (1967) — que o público poderá levar pra casa — que dialogam de perto com o contexto atual do país. Em meio a uma variedade de técnicas e suportes – impressos em offset e em serigrafia, objetos, gravações de áudio e outros – os visitantes terão acesso a dois importantes poemas-livro, Life (1958) e Organismo (1960), disponibilizados em réplicas que poderão ser manipuladas no espaço expositivo.

O curador João Bandeira considera que a obra de Décio Pignatari “é como um continente ainda mal conhecido”. E completa: “o trabalho do Décio ao lado dos irmãos Campos na criação da poesia concreta nos anos 1950 e a discussão sobre isso que ele encampou com eles é, com certeza, uma herança fundamental. Mas a originalidade e a amplitude da produção dele não se esgotam aí. Ele tinha uma coragem de arriscar que eu acho admirável. Além do Décio designer de linguagem naquele padrão suíço mais conhecido, tem também o Décio “udigrudi”, que trocava figurinhas com, por exemplo, Hélio Oiticica ou Júlio Bressane, e que criou com Rogério Duprat o impagável ‘Marda – Movimento de Arregimentação Radical em Defesa da Arte’, pautado pela mais ácida irreverência, de onde saíram roteiros para fotonovelas e coisas como happenings ao som do jingle Brazil, My Mother (de 1970), que, aliás, vai estar também nesta exposição na galeria Millan”.

Miss Natural e outras pinturas

ANA PRATA
10 . out . 2017  -  12 . nov . 2017 , Anexo Millan
abertura 10 . out . 2017, 19h - 22h
(ter – sex, 10h – 19h; sáb, 11h – 17h):
  • Anaprata_18a2228
    Ana Prata
    Escultura, 2017
    Óleo sobre tela
    150 x 120 cm

A Galeria Millan apresenta, de 10 de outubro a 12 de novembro de 2017, Miss Natural e outras pinturas, a segunda exposição individual de Ana Prata na galeria. A mostra ocupa o Anexo Millan e reúne em torno de vinte pinturas em óleo sobre tela que variam entre pequenos e grandes formatos. A artista opera com narrativas não lineares, onde aspectos temáticos e formais se entrelaçam. Cada pintura é para ela uma forma específica e singular de organizar e apresentar uma ideia, e quando postas em conjunto estabelecem novo sentido. Em seu trabalho, há uma ambiguidade latente que pode transitar entre o humor, a interioridade e o espírito crítico.

Nesta exposição algumas famílias de trabalhos são apresentadas, entre elas: figuras humanas, formas geométricas, paisagens e pinturas abstratas gestuais. Um triângulo pode tanto apresentar referências simbólicas — como uma espécie de portal, ou uma ideia de ascensão — como pode remeter, pela maneira como foi pintado, a um vocabulário pictórico do séc. XX. Temas como este, quando colocados ao lado das pinturas de figuras femininas, fazem emergir outros sentidos formando uma teia que não procura encontrar uma resposta, mas sim abrir caminhos de percepção.

No âmbito do feminino, a artista formula uma personagem intitulada Miss Natural, que aparece em alguns trabalhos e pode nos remeter ao conceito da “mãe universal”, figura mítica presente em diversas culturas e religiões pagãs, ou mesmo flertar com o ideal hippie de “retorno às origens” e seus remanescentes na cultura vigente. O trabalho da artista mantém um caráter ambíguo, fato que se torna evidente quando nos damos conta de que a mão de uma dessas figuras femininas pode também nos lembrar as luvas do personagem Mickey Mouse.

As paisagens de montanhas e lagos se estruturam em torno de um mesmo esquema de desenho (que possui a despretensão de um desenho infantil), mas com técnica e visualidade singular, criando temperamentos variados, formalmente díspares. Ao olhar o trabalho de Ana Prata, é perceptível a relação direta que a artista estabelece com diversos momentos de história da arte moderna, como se este diálogo fosse uma ferramenta para o seu fazer. Porém, Prata não cria resistência à diversidade que este diálogo possibilita, e sim o utiliza para o exercício da liberdade.

Respirar sem oxigênio

ORGANIZAÇÃO DE REGINA PARRA
10 . out . 2017  -  04 . nov . 2017 , Galeria Millan
abertura 10 . out . 2017, 19h - 22h
seg – sex, 10h – 19h; sáb, 11h – 17h
  • Regina_jose_galindo_baixa
    Regina José Galindo
    Tierra, 2013
    Vídeo digital colorido com som
    33 min, 30 seg

A Galeria Millan apresenta, de 10 de outubro a 4 de novembro de 2017, a exposição coletiva Respirar sem oxigênio, organizada pela artista Regina Parra. A mostra reúne trabalhos de 24 artistas, incluindo nomes da nova geração — Bruno Levorin, Claudio Bueno, Gui Mohallem, Haroldo Saboia, Heloisa Franco, Julia Gallo & Max Huszar, Julia Ayerbe, Laura Davina, Malka Borenstein, Patrícia Araujo, Thany Sanches — em diálogo com obras importantes de Ana Mazzei, Afonso Tostes, Artur Barrio, Caetano Dias, Fancy, Lenora de Barros, Leticia Parente, Jannis Kounellis, Regina José Galindo, Nelson Felix, Tatiana Blass e Tunga. A proposta é investigar a vulnerabilidade do corpo como um meio para criação de novas potências a partir de um rico diálogo entre diferentes gerações de artistas brasileiros e estrangeiros.

A seleção de obras atravessa os anos 1970 até 2017 e inclui vídeos, esculturas, objetos, pinturas e desenhos que percorrem as distintas deformações sofridas pelo corpo contemporâneo. Deformações que não são torturas mas resultado das “posturas de um corpo que se reagrupa pela vontade de dormir, de vomitar, de se revirar, de ficar sentado a maior parte do tempo.” (Lapoujade, David. O corpo que não aguenta mais); vindas portanto da exaustão, do esgotamento, de um corpo que já não aguenta mais. “É condição própria do corpo ser afetado pelas forças do mundo. Deleuze insiste que um corpo nunca deixa de ser submetido a encontros e confrontos: com a luz, com o oxigênio, com os alimentos, com os sons etc. Um corpo é, segundo ele, sempre ‘encontro com outros corpos’”, conta Parra.

Se essa situação de extrema fragilidade pode ser vista como um sinal de resistência, o esgotamento não seria necessariamente uma paralisia total. Como, então, transformar a grande fadiga em potência? Como respirar sem oxigênio? Essa é a ideia central que será colocada pela curadora: o corpo em colapso como meio para investigação e criação de novas potências frente às contingências políticas, culturais e afetivas da vida contemporânea.

Para complementar a proposta, Regina Parra convidou o coreógrafo Bruno Levorin para desenvolver uma ação como reposta à questão “Quais são os espaços e limites que circunscrevem a comunicação entre dois corpos?”. Levorin vai partir do encontro com o artista visual Haroldo Saboia para investigar práticas coreográficas que discutam a relação entre gesto, nomeação e invocação.

DAS MÃOS E DO BARRO: JULIA ISÍDREZ, EDILTRUDIS NOGUERA E CAROLINA NOGUERA

CURADORIA/CURATED BY: ARACY AMARAL
02 . set . 2017  -  30 . set . 2017 , Galeria Millan e Anexo Millan
abertura 02 . set . 2017, 12h - 16h
seg – sex, 10h – 19h; sáb, 11h – 17h
  • Julia01
    Julia Isídrez
    Vasija roja - Pieza con ondulaciones, rostro, patas y cola zoomorfas, 2017
    Cerâmica
    72 x 62 x 62 cm
  • Julia02
    Julia Isídrez
    Figura roja zoomorfa con pico y cuerpo con ondulaciones, 2017
    Cerâmica
    36 x 28 x 28 cm
  • Ediltrudir02
    Ediltrudis Noguera
    Figura pequeña mujer, 2017
    Cerâmica
    63 x 36 x 22 cm
  • Ediltrudir01
    Ediltrudis Noguera
    Figura zoomorfa (equino), 2017
    Cerâmica
    88 x 43 x 67 cm
  • Carolina02
    Carolina Noguera
    Vaso esférico com seis anjos, 2017
    Cerâmica
    32 x 29 cm
  • Carolina01
    Carolina Noguera
    Figura materna, 2017
    Cerâmica
    38 x 31 cm

A Galeria Millan recebe, de 02 a 30 de setembro de 2017, a exposição inédita Das mãos e do barro, com curadoria de Aracy Amaral, co-curadoria do artista Osvaldo Salerno, um dos diretores do Museo del Barro, de Assunção, e participação do teórico Ticio Escobar. A mostra, que ocupa os espaços da Galeria e Anexo Millan, apresenta pela primeira vez em São Paulo a visceralidade presente na tradição centenária da cerâmica paraguaia a partir de um conjunto de 114 obras, realizadas em 2017, das artistas daquele país: Julia Isídrez, Ediltrudis Noguera e Carolina Noguera.

A mostra foi concebida por Aracy Amaral em 2009, por ocasião de sua curadoria na Trienal do Chile, quando a curadora teve um contato mais profundo com as obras dessas três artistas guaranis autodidatas que honram uma tradição centenária, cujas raízes remontam ao período pré-colombiano, em seu país de origem. “Artesãs que laboram diuturnamente, tendo aprendido com suas mães, que por sua vez aprenderam com suas mães, numa cadeia que vem quase desde o período colonial até nossos dias. A mulher amassa o barro úmido, o homem trabalha na cestaria ou na marcenaria”, conta Amaral.

Itá e Tobatí, cidades natais de Julia Isídrez e das irmãs Ediltrudis Noguera e Carolina Noguera respectivamente, são dois reconhecidos centros de produção de cerâmica Guarani, povo que cultiva a tradição das artes do barro, caracterizada pela produção de urnas funerárias e vasos votivos. As peças das paraguaias carregam rastros do dia partilhado entre os afazeres domésticos, os cuidados com os filhos e a casa, onde o trabalho em barro acontece ao lado do fogão e do cômodo em que suas famílias dormem. “Os movimentos do lar mudam e aparece outra dinâmica que interrompe o hábito”, define a escritora Lia Colombino.

As três artistas trabalham com o barro com inaudita personalidade e já se apresentaram em importantes exposições na América Latina e na Europa, incluindo a Documenta 13, de Kassel. Carolina Noguera (Compañia 21 Julio, Tobatí, 1972)  filha da prestigiosa ceramista Mercedes Areco de Noguera, desde criança começou a trabalhar com a mãe, seguindo a tradição hereditária pré-colonial. Aos 17 anos, Carolina tomou um caminho independente, momento em que começa a desenvolver um estilo próprio, marcado por figuras humanas e angelicais, que até hoje caracteriza sua obra. Começou a adquirir notoriedade a partir do documentário Kambuchi, realizado por Miguel Agüero e que estreou em 2011.

Ediltrudis Noguera (Compañia 21 Julio, Tobatí, 1965), assim como sua irmã Carolina, também dedica-se à arte do barro mas sua prática volta-se para os cântaros (vasos para beber de origem greco-romana) de formas zoomorfas ou antropomorfas, apresentando poderosas imagens de touros, de cavalos e de humanos. Recentemente, seu forno doméstico foi substituído por outro maior para cocção de peças maiores. Tem exposto amplamente no Paraguai e no exterior, a exemplo da Trienal de Santiago, Chile. Em fevereiro de 2017, participou de um seminário de artesanato na Cidade de Antígua, na Guatemala, a convite do Setor de Fomento de BANAMEX, Banco Nacional do México, evento que reuniu grandes mestres da Arte Popular Ibero Americana.

Julia Isídrez (Compañia Caaguazu, Cidade de Itá, 1967), filha da artista Juana Maria Rodas (1925-2013) com quem também aprendeu, assim como as irmãs Noguera, o ofício de ceramista. Seu trabalho concentra-se tanto em peças pequenas, ora inspiradas em animais do ambiente doméstico e seu entorno (cobras, tatus, galinhas, patos, pulgas, aranhas, percevejos, escorpiões, etc.); como também escalas maiores que exploram formatos de vasos e urnas. Expõe internacionalmente desde 1976, incluindo a Galeria da UNESCO, Paris, o Centro de Artes Visuais, Museo del Barro, Assunção (1998,1999), Bienal do Mercosul, Porto Alegre (1999), Feira ARCO, Madrid (2007), 35ª Versão da Mostra Internacional de Artesanato Tradicional, Santiago, Chile (2008), Trienal de Santiago, Chile (2009) e a Documenta de Kassel (2013).

Ao reunir pela primeira vez no Brasil um rico conjunto das obras dessas três artistas, Das mãos e do barro traz uma importante reflexão acerca do fenômeno da arte popular paraguaia bem como sua força expressiva que, ao lado das tradições fabril e musical, estão adquirindo novos contornos diante de uma realidade de comunicação global que amplifica sua produção criativa. Trata-se de obras que traduzem “a transformação do utilitário frente ao fenômeno da contaminação globalizante em uma arte que se faz presente hoje, não apenas em exposições locais e no Museu do Barro, como em eventos internacionais e mostras em outros países”, conta Amaral. Por outro lado, também aponta para o dilema de qualquer tradição centenária entre manter-se ou renovar-se que, ao tentar atender a emergência de um mercado sempre ávido pelo novo, corre o risco de desaparecer.

TIAGO MESTRE

NOITE. INEXTINGUÍVEL, INEXPRIMÍVEL NOITE.
12 . jul . 2017  -  12 . ago . 2017 , Galeria Millan
abertura 12 . jul . 2017, 19h - 22h
seg – sex, 10h – 19h; sáb, 11h – 18h
  • Tm_9210_30x17x16_2017
    Crash
    2017
    cerâmica
    30 x 17 x 16 cm
  • Tm_9217_18x17x17_2017
    Canaletto
    2017
    guache sobre argila crua
    15 x 12 x 8 cm
  • Tm_9213_70x30x25_2017
    Árvore
    2017
    argila crua
    70 x 30 x 25 cm

Artista português que vem ganhando destaque na cena artística brasileira, Tiago Mestre expõe, entre 12 de julho e 12 de agosto, pela primeira vez na Galeria Millan. A mostra “Noite. Inextinguível, inexprimível noite.” empresta seu título do poema “Lugar II” do poeta português Herberto Helder (1930-2015) e reúne um conjunto de 60 obras que exploram a questão da forma e do mito do projeto moderno no âmbito da escultura. Materiais como argila, bronze e gesso dão corpo à obras que se posicionam numa constante negociação entre projeto e imprevisibilidade, entre programa e liberdade expressiva.

O conjunto de obras inclui esculturas de diferentes escalas, vídeo, intervenções na arquitetura da galeria e uma grande instalação (elemento paisagístico que organiza toda a exposição). Estes trabalhos remetem aos primeiros intentos humanos de assimilar o natural dentro de um pensamento projetual, mapeando o processo de assimilação da paisagem a partir do intelecto. “A ideia de projeto como pano de fundo, como orquestração de um sistema”, explica Mestre.

Cada uma das esculturas parece evidenciar um fazer sumário, claramente manual, como se estivesse inacabada ou em estado de puro devir, deixando, muitas das vezes, uma filiação ambígua quanto à sua natureza disciplinar. O uso da cor surge pontualmente, não tanto como sistema, mas antes como recurso que acentua, corrige ou esclarece questões pontuais do trabalho. Essa indefinição semântica, ou transversalidade programática é um dos eixos do trabalho. A problematização da capacidade performática de cada uma das obras é tornada evidente (senão parodiada) em situações como a da escultura de dois morros (obra que a dois tempos é escultura paisagística e nicho para outras obras menores).

O vídeo, que se apresentará no andar superior da galeria, coloca-se como uma espécie de síntese geral da mosta. A imaterialidade deste suporte contrasta de maneira decisiva  com o lado predominantemente objetual dos restantes trabalhos. Nele assistimos a uma transmutação lenta, silenciosa e interminável de formas geométricas e orgânicas, numa referência “apática” ao mito da arquitetura brasileira, à sua relação singular com a natureza e a paisagem.

Embora alguns dos procedimentos da arquitetura estejam envolvidos em seu processo — a exemplo dos croquis e as maquetes de estudo — o olhar de Mestre volta-se mais para a percepção da experiência dos corpos no espaço, sejam eles naturais, escultóricos, ou arquitetônicos. Parece ser essa intimidade entre natureza, espaço e forma, que a presente mostra de Mestre propõe desvelar.

RODRIGO ANDRADE

DUAS CAVERNAS
01 . jun . 2017  -  01 . jul . 2017 , Galeria Millan e Anexo Millan
abertura 31 . mai . 2017, 19h - 22h
seg - sex, 10h - 19h; sáb, 11h - 18h
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    Detalhe de Bellini
    2016
    Óleo sobre tela sobre mdf
    60 x 75 cm

Um dos mais importantes pintores da geração 80, Rodrigo Andrade expõe, de 1 de junho a 1 de julho de 2017, sua produção mais recente na Galeria Millan e Anexo Millan. Duas Cavernas contempla as principais vertentes trabalhadas intensamente pelo artista nos últimos meses. Conhecido por sua capacidade de mudar radicalmente o rumo de sua produção, em busca de novos caminhos de pesquisa, Andrade vive um momento de maior síntese, em que os vários percursos trilhados em 33 anos de carreira parecem confluir para uma maior interação. E cria, com essa exposição, uma interessante interface de diálogo com a grande mostra retrospectiva de sua obra, que ocorre no final do ano na Estação Pinacoteca.

Ao todo a mostra reunirá entre 25 e 30 telas, que se organizam em torno de três eixos principais: as paisagens, inspiradas em sua grande maioria por obras clássicas assinadas por mestres como Ruysdael, Uccello e Bellini (que ocuparão o espaço da galeria); as pinturas abstratas, chamadas de Bilaterais, formadas por dois grandes campos cromáticos em equilíbrio (exibidas no anexo); e, como fiel da balança – por trazer questões familiares aos dois grupos anteriores – uma série de trabalhos recentes, apelidados de “figuras binárias".

Essas figuras binárias transitam entre o abstrato e o figurativo e lidam sempre com a ideia do duplo, do reflexo, aspecto bastante presente em toda a produção do artista. Algumas delas remetem ao universo dos cartoons ou a referências da história da arte (é o caso das telas Fera e Princesa, em diálogo evidente com São Jorge e o Dragão, de Uccello, e Bicho e Pedra, depois de Neves Torres, feita a partir de um trabalho do autor citado no título). Outras mais indecifráveis, como a gigantesca pintura mural, de 6 x 11 metros, que Andrade fará numa das paredes do anexo.

As grutas, catacumbas e rochedos, temas pitorescos do século XIX, encantam o artista há tempos e ele vem colecionando imagens do gênero desde 2010 e reelaborando pictoricamente esse motivo, até chegar no estágio atual.  Tanto as cavernas como seus outros trabalhos são corpos volumétricos que se projetam para além do plano e conquistam o espaço. Para lidar com as massas de tinta – num tipo de trabalho que remete às pinturas com formas geométricas feitas por ele nos anos 2000, e que acabaram se tornando uma espécie de assinatura artística – Andrade lança mão de máscaras, moldes cuidadosamente desenhados no processo de recortar.

Desde os primeiros anos, quando seu trabalho e o de outros companheiros – reunidos no ateliê Casa 7 – ganhou projeção ao participar da 18a Bienal de São Paulo, várias foram as mudanças radicais em sua produção. A última delas ocorreu em 2010, quando Andrade – que vinha fazendo um trabalho fortemente abstrato – surpreendeu o circuito com as paisagens negras, imateriais, feitas a partir de registros fotográficos, que mostrou na 29a Bienal (2010). Agora, além de uma enorme vitalidade e de um retorno em busca a uma maior presença da cor e da forma, o artista parece mais disposto a trilhar caminhos paralelos, descobrindo em cada um deles elementos para nutrir sua pesquisa.

 

NELSON FELIX

VARIAÇÕES PARA CÍTERA E SANTA ROSA
20 . abr . 2017  -  20 . mai . 2017 , Galeria Millan e Anexo Millan
abertura 19 . abr . 2017, 19h - 22h
seg - sex, 10h - 19h; sáb, 11h - 18h
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    Cubo
    Ônix e ferro
    75 x 45 x 41 cm cada
    2017
  • _18a6002
    Escultura de caule I
    Mármore e bronze
    220 x 210 x 45 cm (caule 220)
    2017
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    Desenho Lacre diptico
    Lacre, bronze e aço
    240 x 337 x 30 cm
    2017
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A Galeria Millan apresenta, entre 19/4 e 20/5, exposição inédita de Nelson Felix “Variações para Cítera e Santa Rosa”. A mostra, que ocupa os espaços da Galeria e do Anexo Millan, reúne esculturas e desenhos que refletem as ações do quarto trabalho da série Método poético para descontrole de localidade, iniciada em 1984.

“O Método poético, como expressa o título, visa traduzir uma ideia de espaço, de construção poética, que amalgama locais por meio do desenho e ações semelhantes”, explica o artista. Como uma ópera e seus atos, as três obras anteriores - 4 Cantos, Verso e Um Canto Para Aonde Não Há Canto –, foram realizadas em Portugal (2007/08), em Brasília (2009/11) e São Paulo (2011/13). E agora o quarto trabalho na Galeria Millan e no Museu de Arte Moderna (MAM) do Rio de Janeiro, simultaneamente.

“Como nos livros de poesia moderna, em que desenhos ou gravuras criavam uma relação entre texto e imagem, o Método possui um processo similar. Nesse sentido, esculturas, desenhos, ações, fotografias, vídeos e deslocamentos ilustram um texto, formando uma noção de lugar, que submete-se a um desenho no próprio globo terrestre”, revela Nelson Felix.

Em Variações para Citéra e Santa Rosa, como no projeto no MAM carioca, Nelson Felix elege o poema de Mallarmé Um Lance de Dados Jamais abolirá o Acaso para desestruturar a ideia de um só espaço expositivo. Partindo desse princípio, ele lança um dado, com o número seis em todas as faces, sobre um mapa-múndi, em uma data e hora estabelecidas e em um local incidental do curso de uma estrada. O dado, jogado, define seu acaso, não mais pela aleatoriedade do número, mas sim pela aleatoriedade de sua posição indicada sobre o mapa. Com isso, o artista viaja a Cítera, ilha jônica grega e a Santa Rosa, no pampa argentino.  

Serão expostos na Galeria e no Anexo Millan dezoito desenhos (em lacre, mármore, planta, cabo de aço, bronze e tecido) e sete esculturas (em mármore de carrara, bronze, planta e tv), que remetem ao poeta francês e aos espaços percorridos pelo artista. “Existe hoje um entrecruzamento de fatores físicos e não-físicos acoplados ao entorno da arte, fatores como: informações, significados, história, hierarquia, tempo etc.; o nosso espaço atual, pelo menos em arte, não é mais tão limpo. Neste quarto trabalho, como nos anteriores, também reúnem-se ambientes externos e internos, mas seu interesse encontra-se nos múltiplos significados criados no próprio sítio da exposição”, conclui o artista.

"RETRATOS"

EXPOSIÇÃO COLETIVA: CURADORIA RAFAEL VOGT MAIA ROSA
13 . mar . 2017  -  08 . abr . 2017 , Galeria Millan
abertura 11 . mar . 2017, 12h - 16h
seg - sex, 10h - 19h; sáb, 11h - 18h
  • Tu_8732_91x71_5_2014
    Tunga
    Pitágoras (From La Voie Humide), 2014
    Fotografia
    91 x 71,5 cm
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A Galeria Millan apresenta, entre 11/3 e 8/4, a exposição “Retratos”, com curadoria do crítico de arte e pesquisador Rafael Vogt Maia Rosa. A coletiva reúne 30 obras de artistas brasileiros que, a partir da década de 1960, tomaram o retrato como campo de investigação estética.  

“Esse gênero permitiu aproximações de processos e realidades culturais diversas, tais como a fotografia e a pintura, o universo da arte conceitual e a moda”, afirma o curador. “Foram muitos os artistas nacionais que incursionaram pelo retrato; a seleção realizada valoriza o diálogo entre as obras, incluindo desde trabalhos inéditos de artistas representados pela Galeria Millan até itens raros de acervos particulares, que dificilmente são expostos ao público.”

A lista de participantes traz Wesley Duke Lee, Tunga, Mario Cravo Neto, Waldemar Cordeiro, Geraldo de Barros, Carlos Fajardo, Claudio Tozzi, Regina Parra, Lenora de Barros, Maya Luxemburg, Vik Muniz, Sergio Romagnolo, Boi, Rodrigo Andrade, Ana Prata, Gilda Vogt, Otavio Schipper, Tatiana Blass, José Resende, Fernando Zarif, Bob Wolfenson e Janaina Tschäpe.

“A curadoria procurou evidenciar as experimentações realizadas no país através do gênero do retrato, abrindo campo para a experiência dos visitantes, sem impor nenhum tipo de cronologia ou leitura. Celebramos nesta mostra as múltiplas expressões da arte contemporânea brasileira, tendo em perspectiva a formação de público e a percepção do ‘primitivo tecnisado’ em nossa cultura”, conclui Rafael Vogt. 

ARTUR BARRIO E CRISTINA MOTTA

"AGUATÁ - ...... C .....A ...O .... S"
09 . mar . 2017  -  08 . abr . 2017 , Anexo Millan
abertura 08 . mar . 2017, 19h - 22h
seg - sex, 10h - 19h; sáb, 11h - 18h
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    Cristina Motta
    "Vestígios de Uma Obra", 2016

Pela primeira vez ocupando o Anexo Millan, Artur Barrio Cristina Motta apresentam a mostra "AGUATÁ - ......C .....A ...O ....S", que reúne 40 imagens divididas em três séries: “Vestígios de uma Obra”, “Águas Envenenadas” e “Enfante”. Ao lado das fotografias de Cristina Motta, Artur Barrio apropria-se do espaço expositivo como que transformando-o em ateliê onde cria, poucos dias antes da abertura, uma situação ou experiência inédita.

A produção de Artur Barrio desafia o vocabulário artístico tradicional, de forma que a palavra “exposição” (e seu significado historicamente sedimentado) mal parece se adequar ao que o artista propõe com as ações que realiza em galerias e espaços institucionais pelo mundo. Mais que estender, reduzir ou distorcer a significação corrente de conceitos como espaço expositivo, obra de arte e exposição, Barrio opera a partir de outra lógica, questionando aquilo que está na essência de tais ideias e frustrando deliberadamente as expectativas que nos guiam, enquanto público de arte, ao entrarmos em contato com elas.

Ao reconhecer o modus operandi não só do sistema de arte mas de sistemas em geral, e ao não se identificar com eles, Barrio não se resigna a criar um trabalho que, ao se opor a tais ordenamentos, continue reconhecendo (negativamente) as mesmas questões essenciais; mais que isso, sua poética radical mostra que a desordenação, a quebra de fronteiras, o efêmero e a reversibilidade das situações são “exercícios de liberdade” de forte poder emancipatório.

Enquanto ocupa o longo salão principal do Anexo Millan (inaugurado em 2015 e localizado a 50 metros da Galeria Millan), a fotógrafa Cristina Motta apresenta, no salão de entrada do espaço, cerca de 40 fotografias inéditas produzidas em 2016, divididas em três séries (“Vestígios de uma Obra”, “Águas Envenenadas” e “Enfante”).

Apaixonada pela pintura, a artista busca a essência dessa técnica através da fotografia. Essa devoção é percebida quando atentamos para seus trabalhos fotográficos a princípio quase abstratos, mas que quando vistos com mais atenção mostram-se dotados de grande força poética, originada em suas experimentações com a natureza, luzes, sombras e movimento. Sua obra opera entre a ilusão e o detalhe, na escolha de certos tons de cor, como o azul, que predominam em imagens aparentemente obscuras mas que revelam situações de mundo frágeis e de grande beleza.

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